Fake News - um museu de novidades

"A fake news que corrói nossa sociedade, com requintes de crueldade, porque a destrói por dentro, jogando seus membros uns contra os outros"

[Fake News - um museu de novidades]
Foto : Divulgação

Por Jamil Cabús Neto no dia 14 de Novembro de 2019 ⋅ 13:56

Em determinado tempo da história, a busca pela verdade passou para o segundo plano. As pessoas, ávidas por informações e pelo desejo de fazer prevalecer o que pensavam, passaram a sustentar com veemência extremada, e até rispidez, seus pontos de vista, muitas vezes sem se preocupar se aquilo que estavam divulgando e defendendo possuía realmente fundo de verdade. 

O importante era que o discurso prevalecesse perante o maior número de pessoas possível, a qualquer custo, mesmo que para isso fosse necessário distanciar-se do fato objeto da colocação, até porque este não era o que mais importava. 

A eloquência no uso da palavra prevalecia, ganhando relevo não o conteúdo da mensagem, mas a pessoa que a teria propagado. Considerado como influenciador do mundo moderno, a alta credibilidade do autor da mensagem, legitimado por uma legião de seguidores, estaria a revelar que a informação seria fidedigna. 

Esses ícones da suposta verdade se apresentavam perante a sociedade como estrelas, com posições firmes e dados concretos aparentemente seguros para sustentar suas posições, valendo-se da boa oratória, de gestos, imagens e de todos os meios disponíveis para fazer prevalecer seu discurso.

E aqueles que ouviam seus ensinamentos, rapidamente se apressavam a repassar as informações a todos que conheciam, de forma automática e irrefletida, buscando perante seu meio revelar que também eram pessoas bem informadas, articuladas e engajadas, de maneira que, em um curto espaço de tempo, muita gente tomava conhecimento das verdades difundidas.    

A essa altura do texto, o amigo leitor concluiria que estaria me referindo às fake news amplamente divulgadas no Facebook, Whatsapp, Youtube, Instagram e em outras redes sociais. 

Mas essa conclusão, que ironia, também é falsa. 

Refiro-me ao período em torno de 500 anos antes de Cristo na Grécia antiga, quando os sofistas propalavam para a humanidade a retórica na busca do convencimento do ouvinte da versão sustentada, sem apego ou preocupação com a verdade.  

Sim, a fake news que corrói nossa sociedade, com requintes de crueldade, porque a destrói por dentro, jogando seus membros uns contra os outros, não é novidade da época atual. Prática semelhante ocorria há mais de 2.500 anos, mas agora ganha um perigo muito maior porque potencializada pela força da tecnologia que, em poucas horas, faz chegar a informação falsa a milhares de pessoas. 

No século V a.c., assim como estamos vendo atualmente, os sofistas, que se apresentavam e se auto intitulavam  como sábios, ganhavam a vida pela arte da oratória, ensinando às pessoas a sustentarem opiniões sobre os mais diversos aspectos da vida, sem que a preocupação principal fosse com a verdade, mas apenas com o convencimento dos demais. 

O importante era a capacidade argumentativa, a retórica, e não o conteúdo ou a fidedignidade da informação. Para os sofistas, a verdade seria subjetiva e relativa e, portanto, de pouca relevância já que poderia ser alterada a depender do momento e do local. 

O movimento dos sofistas, pela desonestidade intelectual propalada, como sustentado por muitos historiadores, foi combatido por Sócrates e, posteriormente, por seus discípulos. Aristóteles, por volta de 300 anos a.c., referindo-se aos sofistas parecia tratar das fake news nas redes sociais quando dizia que era “A sabedoria aparente mas não real”. 

O sofisma, como muita informação falsa que nos chega através das redes sociais, representa uma suposta verdade, algo com aparência de realidade, mas que, de fato, é uma cortina de fumaça para nos conduzir a uma conclusão totalmente equivocada. 

Muito tempo depois, no século XIX, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer promoveu prática semelhante ao escrever a obra “Como Vencer um Debate sem Precisar ter Razão”, difundindo técnicas de convencimento como generalizar as informações do oponente, disfarçar o objetivo final e usar a psicologia da negação. 

O brasileiro passa cerca de 03 horas e meia por dia nas redes sociais, só perdendo, no mundo, para os filipinos, segundo dados do relatório 2018 Global Digital da We Are Social e da Hootsuite. A rede social mais utilizada é o Facebook, com 129 milhões de brasileiros, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia. Em segundo lugar no Brasil está o Whatsapp com 120 milhões de usuários.  

Uma notícia pode se espalhar entre 6 milhões de pessoas num curto tempo de aproximadamente 12 horas. 

Muitas informações que circularam nas redes sociais são relevantes e levam conhecimentos importantes a respeito de saúde, educação, política e cidadania a milhares de pessoas, mas centenas de notícias também são inventadas de forma criminosa para manipular as atitudes, os costumes, os hábitos, os pensamentos, e até o voto. 

Portanto, ainda que não seja uma novidade na história do homem, a fake news ganhou uma importância e um grau de perigo muito maior na atualidade com as redes sociais e a tecnologia. Provavelmente não teremos um novo Sócrates, Platão ou Aristótales para combatê-la, mas a boa – e verdadeira - notícia é que todos nós, assim como o veneno, temos o antídoto na palma das nossas mãos. 

*As opiniões colocadas neste texto não representam, necessariamente, a posição do Grupo Metrópole

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